A aula começa com a leitura de uma passagem de "A Arte da Guerra", obra do chinês Sun Tzu (544- 496 a.C). Na sequência, os alunos pulam das cadeiras para confabular entre si.Afobados, discutem como resolver o aquecimento global, o preço do petróleo, uma invasão de terras. O sino no corredor toca e a aula acaba, assim como mais uma fase do "Jogo da Paz Mundial".
Poderia ser uma aula qualquer, mas trata-se de um complexo exercício de simulação política criado há mais de 30 anos pelo professor americano John Hunter, 56."Crianças têm um instinto natural de fazer o bem, seja a alguém com problemas ou ao inimigo. É o que chamo de compaixão espontânea", diz Hunter à Folha, por telefone, de uma escola de Charlottesville, no Estado de Virgínia, onde ensina.
Filho de professora, Hunter cresceu na época da segregação racial, no interior do Estado, e fez parte das primeiras classes a misturar brancos e negros nos bancos da rede pública."Com o jogo, os alunos aprendem a não seguir o caminho do poder, da destruição e da guerra. Eles aprendem a reagir contra impulsos e a pensar a longo prazo.
"No "Jogo da Paz Mundial", que dura cerca de dois meses, Hunter oferece aos estudantes os cargos de primeiro-ministro de quatro países fictícios, além de outros postos, como o de secretário-geral da ONU. "Mas eles escolhem seus times. E digo sempre: "não pense só no seu melhor amigo, mas em quem pode fazer o melhor trabalho".
"Por duas semanas, a classe estuda um dossiê de 13 páginas escrito por Hunter, no qual dezenas de crises precisam ser resolvidas para terminar o jogo. Uma torre com quatro tabuleiros de acrílico traz pecinhas que representam o Exército de cada país, as riquezas, as minorias etc.
“Esse jogo é muito sério, aprendemos de verdade", diz um estudante no recém-lançado documentário de Chris Farina, "World Peace Game and Other 4th Grade Achievements".
Durante o jogo, descobrem-se também pequenos tiranos. Hunter lembra de um aluno "arrogante" que criava problemas com os outros e acabou causando um desastre ambiental numa plataforma de petróleo."A sabedoria coletiva cuidou do caso. O aluno foi levado a tribunal pelos colegas. Ele se desculpou e voltou ao jogo. E mudou sua atitude depois disso", conta.
Hunter criou, no ano passado, uma fundação para disseminar os conceitos do jogo. Amanhã, dá palestra na escola de pós-graduação em educação de Harvard e, em julho, tem agendada sua primeira formação para docentes, em Boston, nos EUA."Quero que os alunos tirem do jogo ferramentas criativas para usar no mundo e, quem sabe, melhorá-lo."
Fonte: Folha de S.Paulo
terça-feira, 26 de abril de 2011
Educação ambiental é caminho para engajamento político de jovem

Compartilhamos entrevista feita pelo Portal Aprendiz ao ex-coordenador do Programa de Juventude e Meio Ambiente do Ministério da Educação, Rangel Mohedano. Para refletir!
Conhecer a cadeia produtiva dos alimentos, descobrir de onde vem a água do seu bairro e articular pessoas em prol de campanhas pelo meio ambiente. Essas são algumas contribuições da educação ambiental para a formação de jovens, segundo o ex-coordenador do Programa de Juventude e Meio Ambiente do Ministério da Educação, Rangel Mohedano, que esteve no cargo até março deste ano.
Ele concedeu uma entrevista exclusiva ao Portal Aprendiz sobre como a educação ambiental pode enriquecer o currículo das escolas. Confira.
Aprendiz – Qual a relação entre educação e meio ambiente? Como o tema pode contribuir para o aprendizado nas escolas e em espaços de educação não formal?
Rangel Mohedano – A ponte entre essas duas áreas é natural. O meio ambiente não é a Amazônia ou o lago Titicaca, mas, sim, onde você está. A relação do ser com o ambiente gera aprendizado, pois todo processo de interação é educativo.
Rangel Mohedano – A ponte entre essas duas áreas é natural. O meio ambiente não é a Amazônia ou o lago Titicaca, mas, sim, onde você está. A relação do ser com o ambiente gera aprendizado, pois todo processo de interação é educativo.
A educação ambiental nos leva por uma linha mais experimental e menos teórica, que é de refletir qual meu papel no meio ambiente. Se eu compro carne, preciso saber se seu processo de produção destrói ou não a Amazônia. É uma questão de perceber como eu, indivíduo, tomo ações que repercutem no mundo.
Aprendiz – O termo educação ambiental parece estar um pouco esvaziado. Há ações do Ministério do Meio Ambiente (MMA) e do Ministério da Educação (MEC) para fortalecer essa área?
Mohedano – O Brasil é o primeiro país a ter uma politica nacional de educação ambiental. Ela é referência em legislação e execução. Pelas diretrizes, o MEC e MMA compõem um órgão gestor que trabalha junto com um comitê para chamar a sociedade para construir ações pela educação ambiental. Com ela, temos, à medida do possível, recursos disponíveis para contratar professores para a área. Neste trabalho de forminha conseguimos reverter o esvaziamento.
Mohedano – O Brasil é o primeiro país a ter uma politica nacional de educação ambiental. Ela é referência em legislação e execução. Pelas diretrizes, o MEC e MMA compõem um órgão gestor que trabalha junto com um comitê para chamar a sociedade para construir ações pela educação ambiental. Com ela, temos, à medida do possível, recursos disponíveis para contratar professores para a área. Neste trabalho de forminha conseguimos reverter o esvaziamento.
Aprendiz – Apesar disso, a participação de escolas nas Conferências Infanto-Juvenis de Meio Ambiente diminuiu.
Mohedano – Na primeira Conferência [Nacional] Infanto-Juvenil de Meio Ambiente [2003] participaram 17 mil escolas. Na última [2009], 11 mil. A participação diminuiu, mas a qualidade aumentou. O processo de qualificação das propostas e das diretrizes foi muito grande.
Mohedano – Na primeira Conferência [Nacional] Infanto-Juvenil de Meio Ambiente [2003] participaram 17 mil escolas. Na última [2009], 11 mil. A participação diminuiu, mas a qualidade aumentou. O processo de qualificação das propostas e das diretrizes foi muito grande.
É notório que as pessoas se debruçaram sobre o tema e perceberam a proposta. Trata-se de uma vontade política. São crianças, adolescentes e jovens falando do mundo que queremos. É um processo participativo grande.
Aprendiz – O Meio Ambiente é um dos macro-campos do Programa Mais Educação. O que isso possibilita?
Mohedano – A educação integral e a educação ambiental têm conceitos que ambas as áreas pegam emprestado uma da outra e que são complementares, principalmente quando se fala em educação em espaços e em perspectiva integral.
Mohedano – A educação integral e a educação ambiental têm conceitos que ambas as áreas pegam emprestado uma da outra e que são complementares, principalmente quando se fala em educação em espaços e em perspectiva integral.
Aprendiz – Quais elementos a educação ambiental apropria da integral e vice-versa?
Mohedano – Um deles é o de Bairro-Escola. O estudante precisa estudar seu espaço, como é o bairro, de onde vem a água, onde você pode comprar produtos e quem vive no bairro, tendo ele como um espaço educador. Na relação com esse espaço, eu me formo e me educo.
Mohedano – Um deles é o de Bairro-Escola. O estudante precisa estudar seu espaço, como é o bairro, de onde vem a água, onde você pode comprar produtos e quem vive no bairro, tendo ele como um espaço educador. Na relação com esse espaço, eu me formo e me educo.
Meio ambiente é, por definição, aquilo que integra tudo. Não tem como falar de água sem falar do clima e do processo de civilização criado naquele espaço. Além disso, possibilita pensar como nossas ações hoje vão impactar daqui 20 ou 30 anos. Se eu formo uma geração para cuidar da água, no futuro teremos água para beber. Se não, não.
Aprendiz – A educação ambiental tem potencial para incentivar jovens a participarem de atividades políticas ou se articularem com outros grupos?
Mohedano – A bandeira ambiental é muito forte e está envolvendo cada vez mais gerações. A ideia é contribuir para ter um mundo saudável para próxima geração. Eu mesmo me envolvi com a causa com 14 anos, pois queria deixar um planeta melhor para os meus filhos. Hoje estou com 30 anos e vejo as gerações que vieram depois da minha com essa vontade mais forte. Então, se trata de uma bandeira mobilização do jovem.
Mohedano – A bandeira ambiental é muito forte e está envolvendo cada vez mais gerações. A ideia é contribuir para ter um mundo saudável para próxima geração. Eu mesmo me envolvi com a causa com 14 anos, pois queria deixar um planeta melhor para os meus filhos. Hoje estou com 30 anos e vejo as gerações que vieram depois da minha com essa vontade mais forte. Então, se trata de uma bandeira mobilização do jovem.
É uma nova forma de fazer política, porque não posso decidir sobre o meio ambiente sozinho. Não importa minha vontade sobre a sua, porque todos têm que fazer sua parte para colaborar com a causa. Não adianta eu parar de jogar lixo no chão se você continua jogando, assim como não adianta São Paulo despoluir o Tietê se Salesópolis [SP] não participar. O ar e a água são de todo mundo. Isso joga a discussão política para um nível elevadíssimo.
Fonte: Portal Aprendiz
Unicamp lança portal para disponibilizar conteúdos educacionais
A Unicamp lançou na manhã desta segunda-feira (25) o OpenCourseWare Unicamp, portal concebido para hospedar conteúdos educacionais em formato digital, originários de disciplinas de cursos de graduação da Universidade. O objetivo da iniciativa é disponibilizar à sociedade, de forma gratuita, materiais como textos, fotos, animações, apostilas, vídeos etc. O espaço já conta com 12 disciplinas, de diferentes áreas do conhecimento. “Para a Unicamp, é muito importante tornar esses conteúdos acessíveis à comunidade acadêmica e à sociedade em geral. Temos convicção de que cada vez mais professores se interessarão pelo uso dessa ferramenta”, afirmou o reitor Fernando Ferreira Costa.A Unicamp é a primeira universidade pública do Brasil a contar com o OCW. A criação do portal começou a ser formatada há pouco mais de dois anos, por meio de um acordo com a Universia Brasil. Na oportunidade, o objetivo era lançar a ferramenta com dez disciplinas disponíveis. “Assim que a atual administração assumiu, demos impulso ao projeto. Não foi uma tarefa trivial criar uma plataforma que contasse com recursos de edição simples e que observasse questões importantes como o respeito ao direito autoral”, relatou o titular da Pró-Reitoria de Graduação (PRG), Marcelo Knobel. Segundo ele, antes mesmo do lançamento oficial do OCW, vários docentes fizeram contato para manifestar o interesse de também publicar conteúdos didáticos no portal.
O trabalho de concepção da ferramenta ficou a cargo da própria PRG, em conjunto com o Grupo Gestor de Tecnologias Educacionais (GGTE). Conforme o coordenador do GGTE, professor José Armando Valente, a principal proposta do OCW é aproximar a sociedade da produção técnico-científica da Unicamp, por meio da publicação das disciplinas dos cursos de graduação. “O portal vai funcionar como uma espécie de vitrine do que é feito na Universidade nesse nível de ensino. Por isso, temos certeza de que nossos docentes vão procurar disponibilizar conteúdos de alta qualidade, dado que os materiais poderão ser acessados e baixados por interessados do mundo todo”, previu.
Ainda conforme Valente, o acesso aos dados disponíveis poderá ser realizado de forma livre e sem custo. Não haverá necessidade de inscrição ou do cumprimento de outras formalidades. Entretanto, o usuário terá que estar de acordo com as condições previstas nos “Termos de Uso”. “No momento da publicação, o GGTE confere com o docente se os direitos autorais relativos aos materiais que compõe a aula foram observados. Se houver alguma dúvida, nós adiamos a publicação até que esse ponto seja devidamente esclarecido”, detalha Valente. A ferramenta não oferece a assistência dos autores para esclarecer eventuais dúvidas, e as informações apresentadas podem não refletir o amplo conteúdo das disciplinas. O OCW também não emite certificados ou diplomas.
O diretor geral da Universia Brasil, Ricardo Fasti, prestigiou o lançamento do OCW da Unicamp. Ele agradeceu o esforço da Universidade em criar o portal. “Trata-se de uma iniciativa inovadora, e a inovação é uma das características da Unicamp. Essa ferramenta certamente mexerá com uma série de situações, inclusive com métodos pedagógicos. O desafio que fica aos professores é fazer com que os conteúdos de suas aulas também possam ser aprendidos a distância”, disse.
A estrutura do OpenCourseWare Unicamp segue uma tendência mundial que possibilita ampliar a relação institucional com a comunidade, a exemplo do que ocorre no Massachusetts Institute of Technology (MIT), por meio do projeto MIT OpenCourseWare. Este disponibiliza à comunidade mundial conteúdos didáticos de suas disciplinas em vários formatos.
Fonte: Manuel Alves Filho / Fotos: Antoninho Perri
Edição das imagens: Luís Paulo Silva
Edição das imagens: Luís Paulo Silva
segunda-feira, 25 de abril de 2011
Escolas do Mais Educação participam de pesquisa sobre jornal escolar
As escolas que escolheram o Jornal Escolar, no cardápio proposto pelo programa de educação integral Mais Educação, dentro do macrocampo da Comunicação e Mídia Escolar (Educomunicação) estão recebendo um questionário que busca reunir subsídios para um melhor conhecimento das expectativas, formas de trabalhar e mesmo dificuldades enfrentadas na realização da atividade. Com o resultado da pesquisa em mãos, será possível ofertar suporte mais adequado às escolas.
O questionário, com campos específicos para professores/coordenadores e monitores do Programa Mais Educação, foi encaminhado por e-mail para quase 900 escolas. As perguntas abordam as rotinas adotadas, o perfil dos alunos, a integração do jornal com outras atividades (inclusive as regulares), as edições publicadas,
O questionário, com campos específicos para professores/coordenadores e monitores do Programa Mais Educação, foi encaminhado por e-mail para quase 900 escolas. As perguntas abordam as rotinas adotadas, o perfil dos alunos, a integração do jornal com outras atividades (inclusive as regulares), as edições publicadas,
dentre outros aspectos que ajudarão a compreender como o jornal escolar vem sendo trabalhado.
Mais informações: falaescola@comcultura.org.br
Fonte:ECA/USP
Cursos online EducaRede com inscrições abertas
O EducaRede abriu no dia 25 de abril as inscrições para seus cursos online, que são totalmente a distância, na plataforma Intercampus, exclusiva do EducaRede, com tecnologia Moodle. Estão sendo oferecidos dois cursos: Blog como Recurso Didático e Pesquisa na Internet: papel do Professor.
O curso "Blog como Recurso Didático" é dividido em quatro módulos:
Módulo 1 - Educação e Web 2.0.
Módulo 2 - Edublogs.
Módulo 3 - Blogs como recurso e estratégia pedagógica.
Módulo 4 - Formação de redes sociais.
O curso “Pesquisa na Internet: o papel do professor” tem três módulos:
Módulo 1 - Pesquisa na Internet.
Módulo 2 - Direitos autorais.
Módulo3 - Plágio e autoria.
Os cursos online EducaRede são gratuitos e oferecem 50 vagas por turma.
Para que mais educadores tenham oportunidade, é permitido que cada pessoa faça apenas um curso por vez. Em caso de inscrição em dois cursos, a solicitação será cancelada para os dois.
Em caso de desistência, serão chamados os inscritos na sequência.
Para fazer a inscrição no curso "Pesquisa na Internet: o papel do professor" acesse: http://migre.me/4ldJA
Para fazer a inscrição no curso "Blog como Recurso Didático" acesse: http://migre.me/4ldOj
Fonte: EducaRede
O curso "Blog como Recurso Didático" é dividido em quatro módulos:
Módulo 1 - Educação e Web 2.0.
Módulo 2 - Edublogs.
Módulo 3 - Blogs como recurso e estratégia pedagógica.
Módulo 4 - Formação de redes sociais.
O curso “Pesquisa na Internet: o papel do professor” tem três módulos:
Módulo 1 - Pesquisa na Internet.
Módulo 2 - Direitos autorais.
Módulo3 - Plágio e autoria.
Os cursos online EducaRede são gratuitos e oferecem 50 vagas por turma.
Para que mais educadores tenham oportunidade, é permitido que cada pessoa faça apenas um curso por vez. Em caso de inscrição em dois cursos, a solicitação será cancelada para os dois.
Em caso de desistência, serão chamados os inscritos na sequência.
Para fazer a inscrição no curso "Pesquisa na Internet: o papel do professor" acesse: http://migre.me/4ldJA
Para fazer a inscrição no curso "Blog como Recurso Didático" acesse: http://migre.me/4ldOj
Fonte: EducaRede
Carlo Carrenho: ‘O mercado do livro digital vai crescer e os impressos continuarão existindo’
Compartilhamos entrevista do site Nós da Comunicação com o economista Carlos Carrenho sobre o mercado editorial e as novas tecnologias.As novas tecnologias trouxeram uma série de possibilidades para o mercado editorial. Atualmente, um autor pode, ele próprio, publicar e comercializar seus livros. Com os tablets e leitores eletrônicos é possível criar livros multimídia com uma série de aplicativos. Em entrevista ao Nós da Comunicação, o economista Carlo Carrenho, especializado em editoração e com mais de 15 anos de experiência na área editorial, tendo passado por editoras como Ediouro e Atlas, ressaltou que o Brasil ainda está atrasado em relação aos novos modelos de negócio realizados em outros países. “Há ainda um conservadorismo muito grande por aqui. Precisamos começar a implementar novas tecnologias e ferramentas para fazer parte dessa mudança e não fugir dela.”
Carrenho, que é coordenador do curso ‘Publishing management: O Negócio do Livro’, oferecido pela Fundação Getulio Vargas (FGV), a partir de maio, acredita que as práticas de leitura mudarão, mas não tanto. “Acho que o digital vai crescer muito, mas existe a paixão pelo livro como objeto. Eu consigo até imaginar um cenário em que a pessoa tenha o livro impresso na estante, mas use o tablet para ler seu conteúdo.”
Nós da Comunicação – Em comparação com o mercado cinematográfico e da música, você acredita que o meio editorial sofreu maior ou menor impacto com as novas práticas de distribuição de conteúdo na rede?
Carlo Carrenho – Sem dúvida, por enquanto, o impacto ainda é menor. Ainda não temos tanto conteúdo digital. Nos Estados Unidos, particularmente, onde já existem muitos livros digitalizados, a pirataria já começa a ser percebida. Entretanto, o impacto que o cinema e a música vêm sofrendo é muito maior.
No Brasil, o acervo digital ainda é pequeno. Temos praticamente quatro mil livros digitais à disposição para venda, por isso é mais difícil o acesso ao arquivo para pirateá-lo. Transformar um livro impresso em PDF é bem mais complexo do que lidar com a música, em que basta copiar o CD e passar os arquivos de áudio para o computador. A pirataria de livros, por meio de fotocópias não autorizadas em papel, afetam muito mais o mercado editorial brasileiro.
Nós da Comunicação – Quais as consequências positivas e negativas da publicação sob demanda?
Carlo Carrenho – As editoras têm um custo enorme de catálogo e estoque de livros, sem nem saber se os exemplares vão vender ou não. Nesse sentido, a impressão por demanda é ótima. Com a tecnologia atual já é possível vender um exemplar, imprimi-lo e entregá-lo ao consumidor. Essa prática já é realizada lá fora, mas ainda está engatinhando aqui no Brasil. Esse modelo impede a editora de ficar com capital de giro empacado no estoque. Com a impressão por demanda já é possível o próprio autor editar e imprimir seu livro em pequenas quantidades. Há uma democratização da publicação e, consequentemente, corre-se o risco também de publicar mais porcaria. Entretanto, daremos também espaço para muitas coisas boas que não eram publicadas antes.
Precisaremos de um trabalho maior de curadoria, seja pelas livrarias ou mesmo pelos consumidores. Vivemos em uma economia de mercado. Até então, os editores eram os guardiões do que deveria ser publicado ou não, mas agora estão perdendo esse poder. É um movimento muito parecido com o que ocorreu com Gutenberg e a criação da imprensa, em uma época em que existiam poucos livros e um controle absoluto por parte da Igreja. Houve democratização, mesmo que só para a elite. A Igreja e a Nobreza ficaram preocupadas, pois a partir daí, qualquer um poderia publicar qualquer coisa. De certa forma é parecida com a atual situação dos editores.
Nós da Comunicação – Os e-readers e tablets são um enorme sucesso de mercado. Com a possibilidade de ter centenas de livros em um só aparelho, você acredita que a relação com o livro impresso sofrerá mudanças?
Carlo Carrenho – Acho que sim, mas temos que diferenciar paixão pela leitura e amor ao livro. Para mim, a primeira será resolvida com livro digital. É mais fácil carregar, ler etc. Entretanto, existe a paixão pelo livro, como objeto, que é um fetiche. Se você ingressar no mundo digital, você irá perdê-lo. Acho que o digital vai crescer muito, mas os formatos impressos continuarão existindo por muito tempo, justamente para atender essa demanda de mercado. Tem pessoas que gostam do livro como algo belo para ter na estante, às vezes não necessariamente para ler. Eu consigo até imaginar um cenário em que a pessoa tenha o livro impresso na estante, mas usa o tablet para ler seu conteúdo.
Em relação à leitura, as mudanças acontecerão quando essas cópias digitais oferecerem mais do que o conteúdo do livro impresso, algo que já está acontecendo com a proliferação dos aplicativos para Kindle, iPad ou iPhone. Quando esses livros oferecerem mais do que o texto – nem sei se poderemos continuar chamando-os de livros, talvez seja uma nova forma de arte – com certeza as práticas de leitura mudarão, e mudarão também a relação do escritor com suas obras. Serão novos produtos.
O mercado editorial brasileiro consegue fazer livros muito baratos, em grande quantidade. Anualmente, são produzidos 15 mil livros por ano. Já o cinema, por exemplo, faz menos produtos e muito mais caros. Quanto mais sofisticado ficarem esses ‘livros-aplicativos’, mais caro será seu custo. Isso vai depender do padrão de multimídia requisitado, o que pode acabar alterando o número de lançamentos anuais.
Nós da Comunicação – Visando um crescimento sustentável do mercado editorial, que ações você considera fundamentais a serem colocadas em prática, tanto por parte do governo quanto por parte da iniciativa privada?
Carlo Carrenho – Por parte da iniciativa privada, eles devem estar antenados com toda essa nova revolução digital. Acho que o Brasil está atrasado em relação ao que acontece em alguns países de ponta. Há ainda um conservadorismo muito grande por aqui. Precisamos começar a implementar novas tecnologias e ferramentas para fazer parte dessa mudança e não fugir dela.
No aspecto governamental, acho que eles devem participar ao máximo com políticas públicas de acesso à leitura, valorizando nossas bibliotecas atuais e promovendo programas de livros mais econômicos e populares. Em longo prazo, devem investir em educação, porque assim aumentará o mercado de leitores e a demanda por publicações. Quanto mais educada for a população, mais ela consumirá livros.
Nós da Comunicação – Pensando também nas editoras universitárias, qual a participação do setor educacional nesse processo?
Carlo Carrenho – Ele tem sua representação por ser um importante segmento do mercado. O crescimento das universidades no Brasil, principalmente as privadas, tem gerado um aumento da demanda por livros universitários, que têm um papel fundamental. Quanto mais as pessoas estudam, mais elas consomem livros. Atualmente há grandes grupos editoriais nesse setor que têm uma participação importantíssima para o mercado.
Nós da Comunicação – Tem sido amplamente divulgado que houve aumento de consumo por parte das classes C e D no Brasil. É fato que diversos setores se beneficiaram. Existe algum estudo que aponte aumento de vendas no mercado de livros? Carlo Carrenho – Não diretamente. Existe um estudo chamado ‘Retrato da Leitura no Brasil’, realizado há quatro anos, que aponta as classes B e C, proporcionalmente falando, como as maiores consumidoras de livros no país. Uma pessoa da classe A compra mais livros, mas ela é minoria.
Não há dúvida que com o crescimento da classe C, e muitas pessoas estão saindo da faixa de pobreza, vai aumentar o consumo de livros mais populares. Não à toa, a Avon, empresa de cosméticos, é uma das maiores vendedoras de exemplares no país. Em volume de cópias, eles estão entre as três maiores no Brasil. Eu fui editor da Thomas Nelson Brasil, do grupo Ediouro. Lançamos um livro chamado ‘Dias melhores virão’ (2007), do Max Lucado, que vendeu em livrarias 50 mil exemplares. A edição especial da Avon, mais barata, vendeu mais de 300 mil unidades.
Nós da Comunicação – A Câmara dos Deputados voltou a discutir um projeto de lei que libera a publicação de biografias não autorizadas no país. Qual a sua opinião sobre o assunto?
Carlo Carrenho – Acredito que as pessoas devem ter liberdade de expressão. Atualmente não é preciso pedir autorização. Um exemplo é o caso do livro do Roberto Carlos. Após sua biografia estar pronta, ele conseguiu proibir sua comercialização, alegando que estavam usando a imagem dele. Para mim, deveria ser igual ao mercado de jornais e revistas. Uma vez publicado um conteúdo, o veículo é responsável judicialmente por ele. Qualquer necessidade de autorização prévia seria considerada censura.
Fonte: Nós da Comunicação
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