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quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Na era da Internet, mural offline vira canal de debate entre alunos de escola paulista

Se grande parte do interesse dos adolescentes está nas redes sociais, blogs e e-mails, os alunos de sétima e oitava série da Escola Estadual Carlos Maximiliano Pereira dos Santos, no bairro da Vila Madalena, na capital paulista, têm seguido por um caminho na contra mão dessa tendência para promover debates: um jornal mural, feito com recortes de revista, papéis coloridos e espaço para os alunos comentarem reportagens.

Com uma caneta na mão, os estudantes deixam no mural o que pensam a respeito da atuação do grêmio escolar, de casos de bullying e sobre perda da virgindade. Os responsáveis por levantar pautas, redigir reportagens e colar imagens do jornal “Junto e Misturado” são os 15 alunos da oficina de comunicação da escola, oferecida no contra turno das aulas, já que a escola estende a jornada educacional das 7h às 16h.

“Alguns alunos sentem falta da facilidade de pesquisar na Internet, mas percebemos que usando revistas e atividades manuais eles produzem de maneira mais criativa”, avalia o educador da oficina, Wagner da Silva. “Um dos participantes tem acesso à Internet no videogame portátil. Mas no dia que ele não levou [o aparelho], produziu de maneira mais livre e rápida”, observa.

O jornal mural é publicado, em média, a cada três semanas. A última edição trouxe para os estudantes a história da camisinha, além de impressões sobre perda da virgindade. A anterior cobrou o grêmio estudantil sobre as propostas prometidas na campanha. Em todas as edições existe um espaço para os leitores escreverem suas opiniões. O próximo “Junto e Misturado” deve abordar opções sexuais dos jovens.

“Uma professora contou que passou uma atividade de comunicação e os alunos da oficina questionaram sobre reunião de pauta. Eram etapas que ela não conhecia e aprendeu com eles, invertendo a ordem de aprendizagem”, conta Silva. “Com a oficina, os alunos passaram a fazer análises mais criticas e a colocar mais o que pensam”.

As oficinas de comunicação acontecem desde abril de 2008 e fazem parte do projeto Escola do Bairro, que tem o objetivo de promover educação integral na escola, unindo conhecimentos curriculares e saberes locais, integrando pais e professores. O projeto une ações desenvolvidas no Teatro da Vila e na Escola Técnica Estadual Guaracy Silveira, que funcionam no mesmo local da escola Maximiliano.

Além das oficinas de comunicação, os estudantes também podem participar de exibições de filmes e aulas de teatro e de canto. Desde junho, a escola conquistou apoio financeiro para manter as ações, por meio do Fundo Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente (Funcad) da cidade de São Paulo. Com o financiamento, a expectativa é a manutenção de uma equipe para o projeto e a replicação da iniciativa em outras escolas.
Fonte: Aprendiz

Boa gestão é tão importante quanto investimento na educação

Participantes do debate ''A Capacidade do Brasil - O Papel da Educação'', promovido pela BBC Brasil e pela rádio CBN na segunda-feira, 21/09, afirmaram que o Brasil precisa ir além do consenso de investir mais no ensino e passar a melhorar a gestão das escolas e faculdades.

O conselheiro da ONG Todos pela Educação, Mozart Neves Ramos, disse que o Brasil investe no ensino menos que seus vizinhos. Enquanto Argentina, Chile e México gastam por ano cerca de US$ 2 mil com cada aluno, o Brasil investe cerca de US$ 1,4 mil. "Se a gente não profissionalizar a gestão, na primeira chuva esse dinheiro vira lama."

Para o economista e professor da FEA-USP e do Insper, Naércio de Menezes Filho, o gasto do governo com cada aluno é tão pequeno que, em alguns casos, o investimento anual equivale a uma mensalidade de escola privada. "Mas nem sempre os municípios que investem mais têm um desempenho educacional melhor. Não basta aumentar os recursos, é necessário aprimorar o modo como essa verba é usada", afirma Menezes.

Resistências políticasA diretora-executiva da Fundação Lemann, Ilona Becskeházy, disse que o primeiro passo seria aplicar a lei existente para regulamentar o investimento em educação. Se a lei for colocada em prática, o gasto do governo passaria de R$ 90 bilhões para R$ 190 bilhões por ano. "É preciso então dobrar o gasto", disse ela, observando que há "resistências" a esse investimento.

Para os debatedores, o principal entrave para ampliar recursos e aprimorar a gestão está na falta de vontade política que segundo eles existe em vários níveis do governo. "Muitos prefeitos preferem construir pontes", afirmou Menezes. Segundo os especialistas, questões politicas não representam entraves apenas no âmbito de governos - elas também pode ser um problema dentro dos muros dos colégios.

Ramos afirmou que "é inadmissível que em pleno século 21 ainda haja indicação política para diretor de escola", referindo-se a pressões que, de acordo com ele, são exercidas por líderes comunitários, vereadores e deputados. "Além das ações pedagógicas, um diretor administra o dinheiro público", afirmou. Menezes lembra ainda que há graves problemas de treinamento dos diretores: "Muitos não sabem lidar com números, por exemplo."

Pobreza inominávelBecskeházy dá a medida do custo dessa má administração: "O dinheiro até chega às Secretarias (de Educação), mas não na sala de aula." Nesse cenário, segundo a diretora, o que se vê Brasil afora são secretarias com muitos funcionários de um lado e salas de aula extramente pobres. "Mesmo aqui em São Paulo, que vem investindo bastante na educação, você entra na sala de aula e vê uma pobreza inominável."

Para Menezes, os problemas com gestão são uma boa oportunidade para escolas públicas aprenderem com escolas, e também empresas, privadas. "As particulares já trabalham para melhorar as práticas gerenciais, para criar um clima propício para o aprendizado e para avaliar constantemente os alunos." Além de investir na capacitação dos diretores, os especialistas foram unânimes em defender a valorização dos bons professores. "A carreira (de magistrado) tem de ser mais promissora", afirma Ramos.

Menezes diz que a questão não é apenas aumentar salários. "É preciso criar um mecanismo que atrele a progressão na carreira do professor ao aprendizado do aluno." Para ele, somente ao implementar a meritocracia você consegue atrair as melhores cabeças para ficar diante da lousa.
Realizado no Espaço Reserva Cultural, em São Paulo, o debate foi o segundo da série "O Futuro do Brasil". O próximo encontro acontece na próxima segunda-feira, dia 27, e tem como tema "O Brasil no Mundo - Política Externa e a Defesa do Meio Ambiente".

Participarão do encontro Ricardo Seitenfus, representante da OEA no Haiti, o ex-ministro das Relações Exteriores Luiz Felipe Lampreia, José Eli da Veiga, professor da Faculdade de Economia da USP, e Sergio Besserman, professor de Economia da PUC-RJ.
Fonte: BBC Brasil

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Você é assim?


Escolas de Embu das Artes criam sites para divulgar atividades culturais

Procurar pautas inéditas, entrevistar fontes, escrever textos e fotografar eventos. O que parece ser a rotina de um jornalista é, na verdade, o dia a dia dos alunos de três escolas públicas de Embu das Artes (SP), que criaram blogs para que os estudantes divulguem atividades culturais que ocorrem no município a preços populares. Os eventos sugeridos custam até R$ 5.

Os blogs Asteca Catraca (Escola Estadual Maria de Almeida Asteca), Freire Catraca (Escola Municipal Paulo Freire) e Mauro Catraca (Escola Municipal Mauro Ferreira) são atualizados por alunos de 9 a 15 anos, que devem pesquisar os eventos oferecidos no município, procurar fotos, redigir textos e publicá-los no site. As atividades acontecem no contra turno das aulas, uma vez que os colégios participantes estendem a jornada das 7h às 14h ou das 11h às 18h.

Por serem consideradas escolas integrais, as ações das chamadas oficinas de mídia farão parte do Programa Mais Educação, uma iniciativa do governo federal que visa ampliar o tempo e o espaço educacional dos alunos da rede pública. A perspectiva é que, até o fim do ano, as escolas municipais Reinaldo da Gama e Elza Marreiro Medina também lancem seus blogs e participem da rede que reúne os sites das escolas em um espaço da Internet, chamada Palco Digital.

“Os alunos se interessaram em saber o que acontece na cidade e em aprender a usar as redes sociais e a editar imagens”, conta a coordenadora da iniciativa, Gisele Kubo. “Eles melhoraram sua capacidade de escrever, fazer pesquisas, seleções e de respeitar outras opiniões. Também passaram a ler jornal. Muitos nem sabiam que tínhamos jornais do município”.

O projeto começou nos primeiros meses de 2010, quando a organização social Faça Parte fez uma articulação com o Ministério da Educação. Na ocasião, o órgão público sugeriu que a Secretaria de Educação de Embu das Artes desenvolvesse o projeto.

Em junho, o Palco Digital foi aberto a outras escolas e associações comunitárias. Até meados de setembro já somavam 75 blogs em Rondônia, Maranhão, Pará, Ceará, Piauí, Goiás, Mato Grosso do Sul, São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul.

“Sempre sugerimos o uso de plataformas gratuitas, como o Wordpress e o Blogspot”, conta a coordenadora de relações com as escolas do Faça Parte, Luiza Marcondes. “A proposta é que os alunos façam a produção, que eles tenham bagagem cultural para ir atrás do que se interessam e que usem as redes sociais para divulgar eventos e cobrar coisas que faltam no seu município”.

A perspectiva do Palco Digital é fazer uma parceria com o Ministério da Cultura para que a iniciativa seja implantada em Pontos de Cultura.

Fonte: Portal Aprendiz/ Texto: Sarah Fernandes

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Estante 2

Compartilhamos pesquisa da Agência de Notícias dos Direitos da Infância - ANDI sobre como a educação é retratada na mídia impressa. A pesquisa é de 2005, mas vale a pena ler a publicação para compreender os aspectos metodológicos e a análise da mesma. Quem sabe você não resolve fazer uma pesquisa parecida?!

A EDUCAÇÃO NA IMPRENSA BRASILEIRACitação: AGÊNCIA DE NOTÍCIAS DOS DIREITOS DA INFÂNCIA e MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO – A educação na imprensa brasileira: responsabilidade e qualidade da informação. Brasília, 2005.

Para acessar a publicação basta clicar aqui!

Resumo:Este documento apresenta resultados da pesquisa A Educação na Imprensa Brasileira, em sua versão preliminar que teve a finalidade de subsidiar as discussões do seminário nacional A Educação na Imprensa Brasileira: Responsabilidade e Qualidade da Informação, realizado no dia 18 de maio de 2005, em São Paulo.Compõem o primeiro bloco da publicação um Resumo Executivo – com um breve apanhado dos principais dados da pesquisa –, seguido de um Panorama Geral que apresenta uma avaliação aprofundada, dividida em 10 seções, dos diversos resultados quanti-qualitativos do estudo. Ao final, é descrita a metodologia utilizada na pesquisa e apresentado o rol dos consultores que participaram da elaboração das reflexões contidas no documento.A segunda parte da publicação agrega, em seus 13 capítulos, considerações sobre importantes aspectos da cobertura jornalística acerca de temáticas específicas relacionadas à Educação. Ao final, o ultimo capítulo oferece dados adicionais sobre a construção da notícia.

Pesquisa:A pesquisa avaliou ao todo 5.362 textos relacionados à Educação, publicados por 57 jornais durante o ano de 2004. A metodologia de análise das notícias foi aplicada de maneira diferenciada aos 3.976 textos jornalísticos que tratavam a Educação como foco principal, e aos 1.386 textos em que a menção à Educação era lateral. A amostra foi obtida por meio de 36 palavras-chave relacionadas ao tema.

Artigos:
* Richard Hartill – Mestre em Administração Pública, especialista em políticas de emprego e setor informal e diretor de Programa para a América do Sul da Save the Children Reino Unido
* Marcelo Coelho – Folha de S. Paulo
* Rosana Heringer – Coordenadora-geral de programas da Action Aid Brasil
* Jarbas Novelino Barato – Doutor em Educação pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), mestre em tecnologia educacional pela San Diego State University

Entrevistas:
* Antônio Góis – Folha de S. Paulo
* Fernando Rossetti – Diretor executivo do Grupo de Institutos, Fundações e Empresas (GIFE)

Realização: Ministério da Educação/ ANDI
Apoio:Unesco
Fonte:
www.informacao.andi.org.br/ culturamidiaeducacao.blogspot.com

Estante

Abaixo, compartilhamos algumas publicações que podem ser úteis a educadores, jornalistas e demais interessados em temas como trabalho infantil e exploração sexual de crianças e adolescentes. São assuntos complexos que precisam ser bem compreendidos!

TRABALHO INFANTIL: UM GUIA PARA JORNALISTAS

Citação: VIVARTA, Veet (Supervisão editorial); PROGRAMA INTERNACIONAL PARA ELIMINAÇÃO DO TRABALHO INFANTIL (IPEC) – Piores formas de trabalho infantil: um guia para jornalistas. Brasília: ANDI; OIT, 2007.

Resumo:Lançado em 2007, o livreto é um convite para que profissionais das redações de todo o país contribuam, de forma mais efetiva e sistemática, para a promoção do debate sobre as Piores Formas de Trabalho Infantil junto à sociedade e ao poder público.

Resultado da contribuição de jornalistas de diversos veículos, que construíram as recomendações aqui publicadas, este guia sistematiza uma demanda da própria imprensa: a necessidade de diversidade de fontes de informação. A expectativa é que os efeitos práticos desta iniciativa sejam refletidos em novas conquistas para o Brasil na prevenção e erradicação das piores formas de trabalho infantil.

Realização:ANDI/ OIT

Para acessar a publicação, basta clicar aqui!

EXPLORAÇÃO SEXUAL COMERCIAL DE CRIANÇAS E ADOLESCENTES: GUIA DE REFERÊNCIA PARA JORNALISTAS

Citação: AGÊNCIA DE NOTÍCIAS DOS DIREITOS DA INFÂNCIA – Exploração sexual de crianças e adolescentes: guia de referência para a cobertura jornalística. Brasília: ANDI, 2007.

Resumo:Lançada em 2007, a publicação reúne orientações relevantes para o trabalho de repórteres e editores sobre temas relativos à Exploração Sexual Comercial e Crianças e de Adolescentes (ESCCA), crime que se constitui uma das mais graves violações dos direitos infanto-juvenis.

Os conteúdos organizados neste guia não esgotam as inúmeras possibilidades de enfoque do tema, mas servem como referência inicial para os jornalistas, oferecendo uma abordagem conceitual do fenômeno e elencando as principais políticas de enfrentamento e as diretrizes da legislação nacional e internacional.

Sugestões de pautas, glossário e guia de fontes complementam o material. Com esse trabalho, a ANDI e a Petrobras pretendem contribuir para aprimorar o tratamento editorial dispensado pela imprensa brasileira ao assunto, fomentando assim um debate consistente sobre essa forma de violência no âmbito da agenda pública.

Realização: ANDI
Patrocínio: Petrobras
Apoio: Unicef

Para acessar a publicação, basta clicar
aqui!

A internet obriga a pensar de forma ligeira e utilitária

Nicholas Carr (foto) cutucou a onça da internet com um argumento longo e bem-desenvolvido no livro "The Shallows -What the Internet is Doing to Our Brains" (que poderia ser traduzido como "No Raso -O que a Internet Está Fazendo com os Nossos Cérebros" e será lançado no Brasil pela Agir).

Em poucas palavras, a facilidade para achar coisas novas na rede e se distrair com elas estaria nos tornando burros. O livro já vendeu mais de 40 mil cópias nos Estados Unidos. Está sendo traduzido em 15 línguas.

Carr recusa a pecha de alarmista, mas sua preocupação com as "tecnologias de tela" é tanta que ele recomenda a restrição do acesso de alunos à internet nas escolas. Não descarta que a rede possa evoluir para a veiculação de ideias menos superficiais, mas tampouco vê indícios de que irá nessa direção. Leia abaixo trechos da entrevista telefônica dada por Carr da casa de parentes em Evergreen, Colorado, onde se refugiou depois de evacuado por força de incêndios florestais perto de sua casa nas montanhas Rochosas.

Folha - O livro deplora a internet como ameaça à mente formada pela invenção de Gutenberg, que nos deu o Renascimento e o Iluminismo. Mas Gutenberg também não destruiu a mente e a filosofia medievais? Ou seria mais preciso dizer que as invenções amplificam e continuam a cultura do passado?

Nicholas Carr - Toda tecnologia de comunicação e escrita traz mudanças. Isso é verdadeiro mesmo para o período anterior a Gutenberg, com a invenção do alfabeto, pela maneira como alterou a memória humana e nos deu maior capacidade de intercambiar informação. A internet, assim como tecnologias anteriores, amplifica certos modos de pensar e certos aspectos da mente intelectual, mas também, ao longo do caminho, sacrifica outras coisas importantes.

Se a leitura e a reflexão profundas estão em risco, como explicar o sucesso de coisas como o Kindle e seu livro?

As coisas não mudam de imediato. O número ao menos dos que leem livros sérios vem caindo há um bom tempo, mas haverá pessoas lendo livros por muito tempo no futuro. Meu argumento é que essa prática está se mudando do centro da cultura para a periferia, e as pessoas começam a usar a tela como sua ferramenta principal de leitura, não a página impressa. Acho também que, à medida que mudamos para dispositivos como Kindle ou iPad para ler livros, mudamos nossa maneira de ler, perdemos algumas das qualidades de imersão da leitura.

O que pode ser feito em termos práticos e individuais para resistir a tal tendência?

Não escrevi o livro para ser do tipo de autoajuda. A mudança que estamos vendo faz parte de uma tendência de longo prazo, na qual a sociedade põe ênfase no pensamento para a solução rápida de problemas, tipos utilitários de pensamento que envolvem encontrar informação precisa rapidamente, distanciando-se de formas mais solitárias, contemplativas e concentradas.
Por outro lado, como indivíduos, nós temos escolha. Mesmo que a desconexão se torne mais e mais difícil, pois a expectativa de que permaneçamos conectados está embutida na nossa vida profissional e cada vez mais na visa social, a maneira de manter o modo mais contemplativo de pensamento é desconectar-se por um tempo substancial, reduzindo nossa dependência em relação às tecnologias de tela e exercendo nossa capacidade de prestar atenção profundamente em uma única coisa.

As escolas deveriam restringir o uso da internet pelos alunos, em lugar de se lançar de cabeça na tecnologia?

Sim. Nos EUA tem havido uma corrida para considerar que computadores na escola são sempre uma coisa boa, até mesmo uma confusão da qualidade do ensino com o tempo que os alunos passam conectados. É um erro.

Certamente os computadores e a internet têm um papel importante a desempenhar na educação, e as crianças precisam aprender competências computacionais, a usar a internet de maneira eficaz. Mas as escolas precisam perceber que essa é uma maneira de pensar diferente de ler um livro. É preciso dar tempo e ênfase, no ensino, para desenvolver a capacidade de prestar atenção em uma única coisa, em vez de mover sua atenção entre diversas coisas. Isso é essencial para certos tipos de pensamento crítico e conceitual.

O sr. consideraria a internet responsável pela epidemia de casos de transtorno de deficit de atenção e hiperatividade (TDAH)?

Não tenho certeza de que a ciência sobre isso seja definitiva, ainda. Há indicações de que as tecnologias que as crianças usam, de videogames a Facebook, possam contribuir para TDAH. É algo que precisa ser mais estudado. Para os pais preocupados com a capacidade de seus filhos de manter a atenção, poderia ser apropriado restringir as tecnologias.

A TV e o rock também já foram acusados no passado de ameaçar os intelectos jovens, mas não há carência de novos escritores e artistas.

Sempre que uma tecnologia nova e popular aparece, há pessoas que adotam uma visão exageradamente otimista, de uma utopia social, e pessoas que adotam uma visão exageradamente negativa, de que ela vai destruir a civilização. No livro tento não adotar uma visão unilateral da tecnologia, porque acho que ela tem muitas coisas boas, do acesso mais fácil à informação até novas ferramentas para autoexpressão.

Meu temor é que, na medida em que empurramos celulares, smartphones e computadores para as crianças em idades cada vez mais precoces, elas não venham a desenvolver as habilidades mentais mais contemplativas e atentas. Isso seria uma grande perda para a cultura, pois a expressão artística requer reflexão mais calma, tranquila, introspectiva.

É concebível que a internet possa mover-se numa direção que combine os poderes da informação visual com os do texto para promover pensamentos em profundidade?

Tudo é possível, mas cada tecnologia que usamos para fins intelectuais tem certos efeitos e reflete um conjunto particular de premissas sobre como devemos pensar. A internet, sendo um sistema multimídia baseado em mensagens e interrupções, tem uma ética intelectual que valoriza certos tipos de pensamento utilitários, voltados para a solução de problemas, que encoraja as multitarefas e a rápida transmissão ou recepção de migalhas de informação. A tecnologia pode mudar rapidamente, mas não vejo razão para pensar que vá [noutra direção].

Fonte: Folha de S. Paulo - 20/09/2010